Correndo o mês de julho

quinta-feira, janeiro 13, 2005

novidades e estórinhas....

Tentou-se a voltar ao quarto e mudar de roupa, mas as saudades começavam a apertar-lhe o peito. Foi buscar a bicicleta que estava na adega e dirigiu-se a casa da D.Esmeralda.
Leonor sempre assim fora, só começava a sentir falta das coisas quando estava quase a tê-las. O mesmo se passava com as pessoas, só sentia saudades quando sabia que as ia ver em breve. Talvez fosse um hábito adquirido ao longo dos anos para não sofrer. Tinha sido criada pela avó, longe dos pais e do irmão mais velho. Sempre tentara não sentir saudades, nem da família, nem dos amigos, nem dos seus objectos mais queridos.
Leonor tinha alguns hábitos muito particulares, que a caracterizavam como pessoa; nunca olhava para trás, mesmo fisicamente, ao sair de uma sala, ao despedir-se de um amigo. Nunca parava e olhava para trás, lançando um último olhar. Jamais. Dizia, sempre sorrindo quando lhe perguntavam o porquê, que um dia poderia olhar e já não conseguir partir... assim se já estivesse habituada a não olhar, nunca correria esse risco.
- Avó, avó. Vem aí a menina Leonor. Anda lá, avó, despacha-te!
Uma grande movimentação se fez sentir. Sempre uma casa cheia. Só netos era 12, fora afilhados, amigos e penetras. D. Esmeralda veio à porta e abraçou Leonor, quase arrancando-a de cima da bicicleta. Sentiu-se espremida entre os seus braços bem gordinhos. E depois, sem respiração entre os beijos que recebia, enquanto a cara era espremida pelas mãos sapudas da D. Esmeralda.
Quando lá conseguiu desembaraçar-se da bicicleta e dos braços que a apertavam, entrou na casa dirigindo-se à cozinha aos tropeções, empurrada pelos netos, filhos, afilhados e criançada em geral.
Sentou-se no banco corrido, afogueada, tinha a cara vermelha e a respiração ofegante. Respirou fundo e perguntou por novidades. Com um sorriso nos lábios foi bebendo um sumo de pêssego, bem fresquinho, que a Patricia, uma das netas, lhe dera. E ouvindo com muita atenção sobre as dores do Padre Caetano, a casa nova da D. Mercês, os bicos de papagaio da Madame Vicente, que como sempre, deram direito a uns bons 10 minutos de risadas.

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Amigos.....

Voltou-se para a porta, ia jurar que tinha ouvido o seu nome. Estaria a sonhar? Serviu-se de uma fatia de tarte e mais uma caneca bem cheia de café. Nada melhor para ter um excelente dia do que um bom pequeno almoço.
Leonor ainda não sabia o porquê de ter voltado à aldeia; aquela aldeia à beira-mar plantada, no sul do país, onde nem mesmo em pleno mês de Julho havia muito movimento. Lembrou os acontecimentos das últimas semanas. Sentiu um arrepio nas costas, uma súbita angústia a apertar-lhe o peito, e as lágrimas a quererem romper cara abaixo. Abanou a cabeça como para afastar as lembranças. Sabia que tinha de voltar a esse assunto, para já decidira fugir, embora soubesse que tinha de pensar e repensar no que havia de fazer. Mas para já era hora de reviver sim, mas coisas boas, coisas idas há muitos anos. Sentir velhos odores, olhar velhas paisagens e principalmente rever velhos amigos.
Como estaria a Amélia? Casada por certo. E o Xavier, será que continuava gago? E a Maria, a sua alma gémea, como estaria?
Tantas perguntas... ia começar por ir a casa da D. Esmeralda, agradecer-lhe tanta dedicação e entregar-lhe os milhares de recados que a avó mandara.
Enquanto refazia mentalmente a lista de recados, colocou uma cafeteira em cima do fogão a lenha para aquecer àgua. Lavar a loiça do pequeno almoço. Jamais saia de casa deixando loiça na banca ou a cama por fazer. Hábitos enraízados durante os anos que viveu com a sua avó, como ela dizia sempre:
- Vá Leonor, vai arrumar as tuas coisas. Podes sair de casa sozinha, mas nunca sabes com quem vais ter de entrar.
Leonor sorriu. A loiça estava a escorrer. E sentia o agradável sabor de missão cumprida.
Saíu pela porta da cozinha que dava para o pátio e voltou-se para admirar a paisagem. Contornou a cerejeira e sentou-se no banco de pedra que por baixo da macieira. Encheu o peito com aquele ar campestre, olhando à volta só via campos e serras, quem diria que a apenas uns dez kilometros estava a praia.

quinta-feira, janeiro 06, 2005

ainda em casa....

Desceu ao andar de baixo, e sentiu o mesmo cheiro a tarte de framboesa no ar. Os pensamentos fugiram para gargalhadas de criança. As suas gargalhadas que se confundiam com as da sua avó.
Em cima da mesa, fumegava ainda a sua tarte preferida. A D. Esmeralda, essa mulher era incansável. E em cima do fogão a lenha, uma cafeteira ainda quente, que denunciava café acabado de fazer.
Quando criança, Leonor, corria os matos mais próximos de casa, para apanhar framboesas, com a desculpa de não se estragarem, lá pedia a avó que fizesse mais uma tarte, a décima daquele verão. Sempre de framboesa.
- Qualquer dia enjoas, rapariga!
- Já pensei nisso avó. Que tal fazermos de mirtilo? É parecido, mas não é igual...
Desatavam as duas a rir com os disparates que Leonor dizia. Era uma criança activa, alegre e sonhadora. Com o sorriso mais bonito que a sua avó alguma vez tinha visto. Tão diferente de agora.... Será? Leonor tinha dúvidas em relação a isso. Não acreditava que já não conseguisse sonhar, achava apenas que tinha medo de o fazer.
Lembrou a avó, aqueles olhos azuis penetrantes, de uma bondade infindável, com um sorriso sempre meigo, com as mãos mais dóceis, e sempre, mas sempre, preocupada.
Esboçou um sorriso.
Como tinha saudades da sua avó, felizmente ainda a podia ver, falar com ela, rir-se com ela.
E era o que ia fazer assim que voltasse de férias. Matar as saudades!

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Férias... num sitio qualquer... num qualquer mês de Julho!

Acordou de manhã bem cedo. Entreabriu os olhos e tentou reconhecer o local que a envolvia. Tinha os braços dormentes e um ligeiro tremor nas pernas. Continuava sem se lembrar de como se tinha deitado ou a que horas teria adormecido. A casa era sua, sem dúvida, mas era a sua casa de férias, na aldeia. Uma casa estranha, deixada em herança pela sua tia avó materna.
Tinha feito oito horas de viagem pela noite dentro, estava uma noite fresca para o mês de Julho, ou então era do cansaço que já vinha a sentir há algumas semanas. Um mês de férias, um mês inteirinho para ela e para os seus sonhos. Isso sim era um verdadeiro sonho. Ansiava por este momento há uns três, quatro anos, desde que tinha mudado a sua vida e nem sabia se para melhor, se para pior. De qualquer forma, estava na altura de pensar nela. Só nela.
Dirigiu-se automaticamente à casa de banho. Adorava aquela casa, velhinha, velhinha. Com milhares de histórias para contar. Desceu as escadas que davam para o andar de baixo. Parou a meio. E subiu outros 4 degraus e lá estava a casa de banho. Era a casa mais esquisita que já tinha visto, adorava-a, com a mesma força de quando era criança. Talvez pela arquitectura pouco convencional, fosse lá a época que fosse.
Despiu-se. Dobrou com meticulosa paciência o pijama, abriu a água, bem quente como gostava, e sentiu a água a escorrer pelas costas nuas. Molhou o cabelo, demasiado comprido pela manhã, quando o tinha de domar, com o comprimento ideal quando se deitava e ficava a brincar a alisá-lo na almofada.
Secou-se com uma toalha vermelha e fofa.
A D. Esmeralda continuava a cuidar da casa, como se fosse dela própria. Bastou um telefonema para toalhas, lençois, panos, tudo o que fosse roupa voasse para a máquina de lavar e tudo ficasse como se naquela casa vivesse uma família.
Voltou ao quarto, onde penteou os longos cabelos, tarefa que diariamente lhe dava algumas angustias, mas que hoje fazia com redescoberto prazer. Vestiu-se, o normal, umas calças de ganga, um top laranja e umas sapatilhas da mesma cor. Era sempre tudo simples, mas tudo tinha de combinar ao pormenor.

terça-feira, janeiro 04, 2005

Correndo o mês de Julho......

Tudo neste blog se vai passar durante o mês de julho de um ano qualquer. De uma vida qualquer. De uma mulher qualquer. Só com uma característica. Essa mulher chama-se Leonor.