novidades e estórinhas....
Tentou-se a voltar ao quarto e mudar de roupa, mas as saudades começavam a apertar-lhe o peito. Foi buscar a bicicleta que estava na adega e dirigiu-se a casa da D.Esmeralda.
Leonor sempre assim fora, só começava a sentir falta das coisas quando estava quase a tê-las. O mesmo se passava com as pessoas, só sentia saudades quando sabia que as ia ver em breve. Talvez fosse um hábito adquirido ao longo dos anos para não sofrer. Tinha sido criada pela avó, longe dos pais e do irmão mais velho. Sempre tentara não sentir saudades, nem da família, nem dos amigos, nem dos seus objectos mais queridos.
Leonor tinha alguns hábitos muito particulares, que a caracterizavam como pessoa; nunca olhava para trás, mesmo fisicamente, ao sair de uma sala, ao despedir-se de um amigo. Nunca parava e olhava para trás, lançando um último olhar. Jamais. Dizia, sempre sorrindo quando lhe perguntavam o porquê, que um dia poderia olhar e já não conseguir partir... assim se já estivesse habituada a não olhar, nunca correria esse risco.
- Avó, avó. Vem aí a menina Leonor. Anda lá, avó, despacha-te!
Uma grande movimentação se fez sentir. Sempre uma casa cheia. Só netos era 12, fora afilhados, amigos e penetras. D. Esmeralda veio à porta e abraçou Leonor, quase arrancando-a de cima da bicicleta. Sentiu-se espremida entre os seus braços bem gordinhos. E depois, sem respiração entre os beijos que recebia, enquanto a cara era espremida pelas mãos sapudas da D. Esmeralda.
Quando lá conseguiu desembaraçar-se da bicicleta e dos braços que a apertavam, entrou na casa dirigindo-se à cozinha aos tropeções, empurrada pelos netos, filhos, afilhados e criançada em geral.
Sentou-se no banco corrido, afogueada, tinha a cara vermelha e a respiração ofegante. Respirou fundo e perguntou por novidades. Com um sorriso nos lábios foi bebendo um sumo de pêssego, bem fresquinho, que a Patricia, uma das netas, lhe dera. E ouvindo com muita atenção sobre as dores do Padre Caetano, a casa nova da D. Mercês, os bicos de papagaio da Madame Vicente, que como sempre, deram direito a uns bons 10 minutos de risadas.
